3. BRASIL 19.6.13

1. ESPIONAGEM NO PORTO
2. DE GRO EM GRO A JBS...
3. E O ROMBO S AUMENTA

1.   ESPIONAGEM NO PORTO
Disfarados de porturios, quatro agentes da Abin  o servio secreto do governo  foram presos sob suspeita de bisbilhotar a vida do governador Eduardo Campos, pr-candidato  Presidncia da Repblica.
HUGO MARQUES E RODRIGO RANGEL

 colossal o esforo do governo para impedir que decolem as candidaturas presidenciais do governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), e da ex-senadora Marina Silva (sem partido). Nos ltimos meses, a presidente Dilma Rousseff reacomodou no ministrio caciques partidrios que ela havia demitido aps denncias de corrupo, loteou cargos de peso entre legendas desgarradas da base aliada e pressionou governadores do prprio PSB a minar os planos de Campos. Sob a orientao do ex-presidente Lula, Dilma trabalha para montar a maior coligao eleitoral da histria e, assim, impedir que eventuais rivais tenham com quem se aliar. A maior parte dessa estratgia  posta em prtica  luz do dia, como a volta dos "faxinados" PR e PDT  Esplanada, mas h tambm uma face clandestina na ofensiva governista, com direito a espionagem perpetrada por agentes do estado. Um dos alvos dessa ao foi justamente Eduardo Campos, considerado pelo PT um estorvo  reeleio de Dilma pela capacidade de dividir com ela os votos dos eleitores do Nordeste, regio que foi fundamental para assegurar a vitria da presidente em 2010. 
     O Porto de Suape, no Recife, carro-chefe do processo de industrializao de Pernambuco, serviu de arena para o at agora mais arrojado movimento envolvendo essa disputa pr-eleitoral. No dia 11 de abril, a Polcia Militar deteve quatro espies da Agncia Brasileira de Inteligncia (Abin) que fingiam trabalhar  no local, mas h semanas se dedicavam a colher informaes que pudessem ser usadas contra Campos. A Secretaria de Segurana Pblica estadual j monitorava os agentes travestidos de porturios fazia algum tempo. Disfarados, eles estavam no estacionamento do porto quando foram abordados por seguranas. Apresentaram documentos de identidade falsos e se disseram operrios. Acionada logo depois, a PM entrou em cena. Diante dos policiais, os espies admitiram que eram agentes da Abin, que estavam cumprindo uma misso sigilosa e pediram que no fossem feitos registros oficiais da deteno. O incidente foi documentado em um relatrio de uma pgina, numa folha de papel sem timbre, arquivada no Gabinete Militar do governador. Contrariado com a espionagem, Eduardo Campos ligou para o chefe do Gabinete de Segurana Institucional (GSI) da Presidncia da Repblica, general Jos Elito Siqueira, a quem o servio secreto do governo est subordinado. 
     Em uma reunio com aliados do PPS, o governador contou que o general garantiu que no houve espionagem de cunho poltico, ou de vis eleitoral, mas apenas um trabalho rotineiro. "Ns fazemos apenas monitoramento de cenrios para a presidenta", ponderou o chefe do GSI. Apesar da gravidade do incidente, o caso foi dado como encerrado pelos dois lados. Poucas pessoas souberam da histria. A elas, Campos explicou que no queria tornar pblico o episdio para no "atritar" ainda mais a relao com o Palcio do Planalto nem causar um rompimento entre as partes. Mas houve desdobramentos. "Tive de prender quatro agentes da Abin que estavam me monitorando", revelou Eduardo Campos. E ainda desabafou: "Isso  coisa de quem no gosta de democracia, de um governo policialesco". Pediu aos aliados que o assunto fosse mantido em segredo. "No tenho nada a dizer sobre isso", desculpou-se na semana passada o deputado Roberto Freire, presidente da legenda, que estava presente  reunio. 
     Os agentes detidos no Porto de Suape trabalham na superintendncia da Abin em Pernambuco. So eles: Mrio Ricardo Dias de Santana, Nilton de Oliveira Cunha Jnior, Renato Carvalho Raposo de Melo e Edmilson Monteiro da Silva. No dia da deteno, usavam um Plio (JCG-1781) e um Peugeot (KHI-1941). A placa do Plio  fria, no existe. J a do Peugeot  registrada em nome da prpria Abin. Na semana passada, o agente snior Mrio Santana se aposentou. Nilton Jnior e Renato de Melo davam expediente normalmente na superintendncia. J Edmilson Silva, na quinta-feira, eslava escalado para o planto noturno. Nada mais natural. Edmilson Silva tem uma dupla jornada de trabalho. Alm de espio,  vereador, eleito pelo PV, no municpio de Jaboato dos Guararapes. Vive, portanto, uma situao curiosa. Durante o dia, como vereador,  um defensor das liberdades. s escuras, como araponga, une-se aos colegas de repartio para viol-las. "Fui ao Porto de Suape algumas vezes apenas para visitar amigos", disse a VEJA o agente-vereador. "Mas nunca fui detido ou preso, nunca usei documentos falsos, no h nenhum registro sobre isso." Funcionrio da Abin h trinta anos, Edmilson garante que hoje no existe mais nenhum tipo de ao de monitoramento contra cidados ou governantes. 
     As declaraes do agente no encontram sintonia nem com as manifestaes dos prprios superiores. No dia 4 de abril, uma semana antes das detenes realizadas pela polcia, o jornal O Estado de S. Paulo revelou que, a mando do GSI, a Abin montara uma operao para monitorar a movimentao sindical no Porto de Suape. quela altura, a presidente Dilma e o governador de Pernambuco estavam em lados opostos na discusso sobre a MP dos Portos. Campos fazia ressalvas pblicas ao texto e recebia em audincia  setores do sindicalismo que tambm eram contrrios a posies defendidas pelo Planalto. A operao de monitoramento no porto foi classificada pelo GSI como "gerenciamento de risco" e tinha como objetivo medir a possibilidade de realizao de uma greve em Suape e nos demais portos do pas. Flagrado em plena ao, o GSI primeiro negou o monitoramento. O general Jos Elito chegou a tachar de mentirosa a reportagem. O jornal, ento, publicou um documento sigiloso que confirmava o monitoramento da Abin sobre os porturios e os sindicatos contrrios  MP dos Portos. Restou ao general reconhecer a prpria mentira e admitir o bvio: "A gente monitora tudo, assuntos que possam ser de interesse do pas. Tudo o que a gente faz  para assessorar a senhora presidenta e os rgos de governo para decises oportunas". 
     Desmentido pelos fatos, o general acrescentou que a ao foi amparada pela lei que criou o Sistema Brasileiro de Inteligncia e refletia a preocupao do governo com possveis greves de porturios. "No foi um monitoramento de movimento A ou B, mas de cenrio." As declaraes de Elito foram dadas seis dias depois da deteno dos quatro agentes da Abin. Nas conversas com auxiliares e polticos. Campos deixou claro que tinha sido vtima de uma bisbilhotagem poltica. Ele seria o alvo. A escolha de Suape no foi  toa. Antes da construo do porto, a economia pernambucana era meramente sucroalcooleira. Com o novo polo, fruto dos investimentos e da ajuda federal decorrentes da tima relao que o governador mantinha com o ento presidente Lula, Pernambuco se modernizou. Diferentes indstrias saram do papel, como a naval, e uma rede de infraestrutura foi montada. "Tudo em Pernambuco  feito em funo de Suape. Viadutos, ferrovias, tudo. A vocao industrial do estado apareceu graas ao porto", diz um ex-ministro do governo Lula. Os grandes investimentos, portanto, passam por l  assim como as grandes empresas e os financiadores de campanha. 
     Mais que porturios insurgentes, os agentes da Abin pretendiam mapear eventuais relaes esprias entre Campos e o setor privado. Os agentes detidos faziam perguntas especficas sobre o governador. "No porto, atuam grandes financiadores de campanha e, mais importante, grandes corretores de contribuies eleitorais", diz um parlamentar de Pernambuco. No se sabe se esse era exatamente o objetivo dos espies. Campos j havia manifestado contrariedade  fora desproporcional usada pelo PT para inviabilizar sua candidatura, mas ainda considerava tais gestos parte do jogo. A entrada em cena da Abin, que j foi usada em outras ocasies com objetivos meramente polticos, mudou um pouco o nimo do governador. Procurado na semana passada, Eduardo Campos no quis comentar o caso. "Perguntem ao GSI", limitou-se a dizer. O Gabinete de Segurana Institucional informou que "todos os esclarecimentos" sobre a ao dos agentes em Pernambuco j foram dados e que eles no "realizaram nenhuma operao para monitorar o movimento sindical". Sobre a priso dos espies, o GSI silenciou. A Abin  um rgo de assessoramento exclusivo do presidente da Repblica. A assessoria de Dilma Rousseff, porm, afirmou que a presidente no foi informada nem da misso porturia dos espies nem das prises que se sucederam. At a ltima sexta-feira, o general Jos Elito continuava firme no cargo.

OS ESCNDALOS DA ABIN
A Agncia Brasileira de Inteligncia deveria assessorar o presidente da Repblica com informaes sobre assuntos estratgicos e de interesse do estado. Deveria. O rgo j se envolveu em casos rumorosos de espionagem clandestina e investigao ilegal.

GRAMPOS CLANDESTINOS
Em 1999, um agente da Abin foi apontado pela Polcia Federal como responsvel pela instalao de um grampo telefnico na sede do Banco Nacional de Desenvolvimento Econmico e Social. Totalmente ilegal, a ao captou conversas do ento presidente da Repblica Fernando Henrique Cardoso.

CONSTRANGIMENTO
Em 2000, uma espi a servio da agncia foi escalada para seduzir e espionar o procurador da Repblica Luiz Francisco de Souza, na poca um implacvel perseguidor de corruptos no governo. A agente simulou ter sido vtima de agresso para constranger o procurador.

BISBILHOTAGEM
Em 2008, a Abin destacou um grupo de agentes para trabalhar na chamada Operao Satiagraha  que investigou clandestinamente um rol de autoridades, entre elas a ento ministra Dilma Rousseff e o ministro Gilmar Mendes, do STF.


2. DE GRO EM GRO A JBS...
...enche os cofres. Com o amparo do BNDES e a compra da Seara, a empresa j  o maior grupo privado do Brasil.

     A cada trs bois abatidos no Brasil um sai das unidades do grupo JBS. So 42.600 cabeas de gado por dia. O frigorfico dos irmos Batista, que j ostentava o status de maior empresa brasileira de alimentos, ganhou corpo com a compra da Seara, na ltima semana, por 5,8 bilhes de reais. Torna-se agora a segunda companhia brasileira em faturamento, com 100 bilhes de reais de vendas ao ano, e a maior de capital privado, superando a Vale. A Seara, uma tradicional empresa catarinense com atuao no abate de aves e em alimentos industrializados, pertencia, desde 2009, ao frigorfico rival Marfrig, que se viu obrigado a se desfazer da marca para reduzir seu endividamento  o valor da compra corresponde, na verdade, a  dvidas que sero assumidas pela JBS. "A Seara tem um valor estratgico imenso, que refora nossa operao em reas em que no ramos to atuantes", disse Wesley Batista, presidente da JBS. 
     A holding J&F, dos irmos Batista, agrega a JBS e negcios em diversos ramos: papel e celulose (com a Eldorado), financeiro (Banco Original), alimentos lcteos (Vigor) e cosmticos e produtos de limpeza (Flora), entre outros. A compra da Seara  mais um degrau na ascenso meterica do frigorfico. H pouco mais de um ano, a JBS no tinha sequer operaes de abate de aves no Brasil, at arrendar as instalaes da Doux Frangosul e passar a ter a capacidade de abater 1,2 milho de aves ao dia. Com a Seara, triplicou de tamanho e fica atrs apenas da lder BRF (Perdigo-Sadia). Mundialmente, vai superar a americana Tyson Foods e assumir a liderana do setor, graas s operaes do grupo brasileiro nos Estados Unidos. Outro salto se dar agora na rea de alimentos industrializados. A JBS tinha menos de 1 % desse mercado e passar a 17% com a Seara, segundo projees. 
     A escalada da JBS se intensificou a partir de 2007, quando ela abriu o capital na Bovespa, levantando recursos para sustentar a expanso. Recentemente, a empresa buscou aprimorar a sua administrao, atraindo executivos de peso. H um ano, o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles foi contratado para presidir o conselho consultivo da J&F. Sem o apoio do governo, entretanto, a companhia no teria ido to longe. O BNDES detm 23% das aes da JBS e j concedeu 6,4 bilhes de reais em emprstimos  J&F. Diz Srgio Lazzarini, professor do Insper: "A questo a que o governo e o BNDES no responderam de maneira objetiva  quais so os benefcios para o pas que justificam incentivar a formao de gigantes nacionais, como a JBS". 
MARCELO SAKATE

A SEGUNDA MAIOR DO PAS
Medida pelo faturamento total das vendas, a JBS ultrapassou a Vale e fica atrs apenas da Petrobras (em reais, em 2012)
*Estimativa, incluindo a Seara
Fonte: Economatica

BR PETROBRAS 281 bilhes
JBS 100 bilhes *
VALE 94 bilhes
ULTRAPAR 54 bilhes
Po de Acar 51 bilhes.


3. E O ROMBO S AUMENTA
Uma pesada multa ambiental se soma ao bilionrio prejuzo j acumulado pela Petrobras com a refinaria de Pasadena  um negcio que periga virar alvo de CPI.
MALU GASPER

     Desde que foi comprada pela Petrobras, em 2006, a refinaria de Pasadena, no Texas, s trouxe prejuzo e dor de cabea. Custou  estatal 1,18 bilho de dlares, mas, a tirar pela ltima oferta que fizeram por ela, no vale mais que um dcimo disso. Trazido  luz por VEJA, o caso no  escandaloso apenas pela extenso do rombo, mas tambm porque em suas entranhas sobejam indcios de supertaturamento e corrupo. Em maio, a presidente da Petrobras,  Graa Foster, teve de ir ao Congresso dar explicaes sobre os meandros do negcio, que periga virar alvo de uma CPI. O Tribunal de Contas da Unio (TCU) concluiu que houve ali, no mnimo, "gesto temerria". Na semana passada, tambm o Ministrio Pblico Federal abriu inqurito para apurar as suspeitas de propina que pairam sobre Pasadena. Intriga o fato de que sua compra, selada s vsperas de uma eleio presidencial, tenha ferido to frontalmente a lgica de mercado  e os interesses da prpria Petrobras  desde o seu embrio. Quanto mais se revira a trama, mais ela se complica. Segundo VEJA apurou, em 30 de janeiro a estatal recebeu multa de 1,5 milho de reais por estragos ambientais causados pela velha refinaria. Ciente do tamanho da encrenca, Graa pediu  sua assessoria tcnica que traasse um plano para torn-la rentvel.  Ele ainda no est pronto, mas o consenso  geral: s mesmo construindo uma nova. 
     Nos ltimos meses, a presidente da estatal destituiu de cargos de confiana uma dezena de executivos. Correu nos bastidores a verso de que eles estariam sendo castigados justamente pela trapalhada ambiental no Texas (o que a Petrobras nega). Lquido e certo  que Graa gostaria de se ver livre deste e de vrios outros maus investimentos deixados no exterior por seus antecessores  e vem trabalhando por isso. Ps  venda campos de petrleo e subsidirias (ainda  espera de interessados) e esteve por um triz de passar adiante a operao na Argentina para um velho aliado da presidente Cristina Kirchner. O negcio acabou sendo barrado pela diretoria da estatal depois de suscitar suspeitas de negociatas e favorecimento poltico. Graa corre contra o tempo para arrecadar 14,8 bilhes de dlares para ajudar a financiar a explorao do pr-sal. 
     Certamente eles no viro de Pasadena. Situada na regio metropolitana de Houston, a refinaria estava desativada e j era considerada obsoleta quando, em 2005, foi comprada pela trading belga Astra Oil por 42,5 milhes de dlares. Carregava ento um pesado passivo trabalhista e ambiental  fora inclusive alvo da maior multa j aplicada a uma refinaria do Texas por emisso de poluentes, o mesmo motivo da ltima autuao. Ainda assim, em 2006, a Petrobras aceitou pagar 360 milhes de dlares por metade de Pasadena (sim, uma valorizao de dezessete vezes em relao ao que os belgas haviam desembolsado apenas um ano antes). A conta brasileira viria a passar de 1 bilho de dlares depois de uma acirrada disputa com a Astra Oil na Justia americana. Para encerrar o litgio, a Petrobras concordou em pagar 820 milhes pelo quinho da ex-scia. Em meados do ano passado, Graa ps a refinaria  venda, mas, diante de uma nica e minguada proposta de 180 milhes de dlares, recuou. 
     No fim de maio, o deputado Leonardo Quinto (PMDB-MG) protocolou um pedido de CPI para apurar o prejuzo no Texas. Soou como uma retaliao ao fato de seu partido ter sido alijado da diretoria internacional da Petrobras, ocupada desde julho pela prpria Graa Foster, que acumulou as funes de um ex-apadrinhado do PMDB. O deputado no admite, mas tem emitido sinais de que pode retroceder. A to alardeada sesso conjunta com a presena de Graa e do procurador do TCU Marinus Marsico, que apura o caso, nunca aconteceu, e ela foi ouvida sozinha. Atendendo a um pedido do presidente da Cmara, Henrique Alves, seu colega de partido, Quinto concordou em enviar  presidente da estatal um questionrio a ser respondido antes de ele bater o martelo sobre a CPI. Anda dizendo por a que no vai voltar atrs. Enquanto ele pensa, o rombo aumenta.


